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Pode a Não-Violência Irromper no Oriente Médio?
Rajmohan Gandhi na Cisjordânia com Dr. Mustafa Barghouthi, Secretário Geral da Iniciativa Nacional Palestina (Foto: Lazar Simeonov)Só depois de um passeio que fiz no arredores da Cisjordânia, Palestina, passando por diversos vilarejos a oeste de Ramallah, à frente da resistência das terras controladas por Israel, é que me dei conta de como os assentamentos, muros, barricadas e ruas com divisórias estão por todos os lados e dominam a paisagem. É difícil acreditar que o governo israelense esteja falando sério quando declara ser a favor de um Estado Palestino independente. Essas barreiras físicas obstróem a própria criação do Estado Palestino.
No entanto, se os instrumentos de dominação e expansão israelenses parecem mais opressivos do que o esperado, a série de atividades de não-violência por parte dos palestinos contra a ocupação é, a meu ver, igualmente maior e mais criativa do que tinha imaginado.
Ethan Bronner escreveu no New York Times de 6 de abril: ‘Algo está acontecendo na Cisjordânia. Tanto a diplomacia quanto a luta armada estão sem apoio por terem fracassado [...] As Autoridades palestinas controladas pelo Fatah, acompanhadas da comunidade empresarial, está tentando encontrar um terceiro caminho: construir o equivalente a um Estado e nação a partir de atos de resistência popular... e evitando a violência’.
Meu anfitrião na Cisjordânia, o Dr. Mustafa Barghouthi, está à frente de tais esforços como secretário-geral da Iniciativa Nacional Palestina e passou anos fortalecendo a sociedade civil palestina por meio de programas educacionais e de saúde pública.
Como o Dr. Barghouthi, muitos palestinos que conheci parecem carregar duas armas nas mãos – em uma a arma da resistência não-violenta e na outra a arma do trabalho construtivo.
Mas como sabemos, também existem muitos israelenses ativistas e defensores da paz– e muitos mais do que imaginamos – que abraçaram a resistência não-violenta, arriscando até mesmo serem encarceirados devido à causa da paz e em apoio à autodeterminação da Palestina.
No Domingo de Páscoa orei silenciosamente em dois locais sagrados – no túmulo de Abraão e na Igreja da Natividade, em Belém – pela libertação da Palestina e pelo bem-estar de meus amigos judeus em Israel e ao redor do mundo, em particular nos EUA.
Como disse ao Presidente Shimon Peres, quando ele me recebeu em sua casa, no oeste de Jerusalém, a recuperação do povo judeu após o Holocausto é um dos capítulos mais comoventes da História da Humanidade. E (acrescentei) eu rezo por um novo capítulo nessa História: o capítulo onde seja feita jutiça aos palestinos.
O princípio da justiça está no âmago do Judaísmo. Pressões internacionais para que o governo israelense aja a favor de um assentamento pacífico não são suficientes. A comunidade internacional deve se empenhar ainda mais para despertar a consciência judaica e buscar essa justiça que está arraigada no caráter dos judeus – formada não somente nos dois milênios em que foram vítimas de injustiça, mas também desde suas velhas origens na fé judaica.
“Que jorre a justiça como um rio poderoso”, bradou o profeta judeu, Amós, há 2800 anos, no mesmo pedaço de terra em que hoje palestinos e israelenses trocaram tiros e bombas por justiça. Mas Amós ainda declarou: “e a integridade como uma corrente interminável”.
Não existem rios sem as correntes que os alimentam. A justiça de hoje, como na época de Amós, precisa de correntes com respostas sinceras de autodeterminação que as sustentem. “Direcionar o refletor para dentro”, como dizia meu avô Mahatma, é a ideologia que o Iniciativas de Mudança tenta apoiar.
Se o nosso coração der primazia à voz interna da verdade, vamos despertar os nossos princípios mais internos da virtude da misericórdia – sejamos nós hinduístas, judeus, muçulmanos, cristãos, budistas, de outra fé ou simplesmente humanos. Milhões de muçulmanos oram várias vezes ao dia em nome de Alá “o mais piedoso”. Simplesmente essa é a única cura para o ódio sem que seja suscitada uma onda de violência neste antigo conflito. É a conduta inteligente do governo, demonstrada em nossa memória viva através da liderança sem ódio de Gandhi e Mandela. E certamente não é menos possível no Oriente Médio do que foi na Índia e na África do Sul.
Vim ao Oriente Médio, depois de visitar a África, com as palavras de Mandela ecoando em meus ouvidos: que a liberação da África do Sul é incompleta sem a liberação da Palestina. Eu diria o mesmo a respeito da liberação da Índia e do Paquistão.
A União Soviética ruiu, o apartheid na África do Sul acabou. O mesmo acontecerá com a ocupação palestina, assim como a ameaça contra uma existência pacífica com Israel – mas não sem uma conduta perspicaz do governo que transcenda a ódios e receios e que, penetrando na auto-crítica, “vire o refletor” para nossas próprias intenções, comportamentos e intrigas políticas, fazendo emergir a qualidade ímpar da misericórdia.
Poderia a não-violência oferecer um terceiro meio entre Israel e a Palestina? Mahatma Gandhi sustentava que a satyagraha (força da verdade) não-violenta “procura pôr fim a antagonismos mas não aos antagonistas”. Muitas vezes ele alegou que a não-violência requer coragem, uma disponibilidade para sofrer. E dizia que aqueles dispostos a matar um homem ou morrer por uma causa poderiam se tornar praticantes da não-violência.
Seja com jovens idolatrando a intifada, veteranos israelenses de múltiplas guerras, mães resignadas sacrificando seus filhos por uma causa maior ou jovens em armaduras nos postos de controle, o Oriente Médio tenha talvez a maior história de sofrimento e bravura que qualquer outro lugar da Terra.
Anseio por essa capacidade de produzir uma nova onda de não-violência no Oriente Médio e por encontrar um caminho para a paz duradoura.
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