A Prova de que Princípio e Política podem se Misturar

Kim Beazley Jr. no lançamento de O Pai da Casa (Foto: cortesia de www.ninemsn.com.au)Kim Beazley Jr. no lançamento de O Pai da Casa (Foto: cortesia de www.ninemsn.com.au)O lançamento do livro Father of the House, the memoirs of the late Kim Edward Beazley (“O Pai da Casa - memórias do falecido Kim Edward Beazley”), ocorreu no dia 11 de Fevereiro, no Parlamento Federal da Austrália. Como Ministro da Educação entre 1972 e 1975, Beazley foi responsável por algumas das reformas mais duradouras do governo trabalhista de Gough Whitlam. O evento tomou lugar no salão Labor Caucus, que ficou repleto de membros do governo, senadores, ministros, os presidentes da Câmara e do Senado e da família de Beazley, incluindo seu filho Kim Christian Beazley, que foi recentemente líder trabalhista (antes de Kevin Rudd).

O Senador John Faulkner proferiu o principal discurso, falando sobre o “papel central” que o Rearmamento Moral (como o IM era então conhecido) desempenhou na vida de Beazley e sobre o enorme impacto que teve sobre suas visões políticas e sua conduta.

Beazley subiu ao parlamento em 1945, com apenas 27 anos, quando foi nomeado pelo Partido Trabalhista para representar a cidade de Fremantle, após o falecimento do primeiro-ministro John Curtin. Como era o mais jovem membro do parlamento, foi apelidado de “o príncipe estudante”. Na época de sua aposentadoria, em 1977, ele era o membro de mais longo mandato na Casa dos Representantes, sendo chamado então de “O Pai da Casa”.

“Como ministro da educação, Kim Beazley supervisionou o fim da divisão de fundos que separava as escolas privadas das públicas e a introdução da formação universitária gratuita. Em seguida, viveu dois anos muito difíceis após a derrota do governo Whitlam – além de sua crescente desilusão com a liderança de Gough Whitlam”, disse Faulkner.

“A história desse livro é notável. Mas ainda mais notável é a forma com que revela, com as próprias palavras de Beazley, suas convicções, sua consciência e coragem na defesa – muitas vezes não popular – de ambos.”

Faulkner declarou ainda: “Ele conta no livro que, apesar de seus 32 anos no parlamento, algumas vezes, por interesse da unidade de seu partido, votou contra sua opinião, mas jamais contra sua consciência.” Leia a íntegra do discurso aqui [em inglês]

O livro também foi lançado 2 dias antes, na biblioteca da escola primária Christchurch, em Perth, na Austrália Ocidental, estado de Beazley. Cinco parlamentares do Partido Trabalhista estavam presentes, como o ex-Governador do Estado Alan Carpenter, acadêmicos, familiares e amigos. Dr. Geoff Gallop, outro ex-governador da Austrália Ocidental, havia planejado lançar o livro, mas não pôde comparecer, devido a uma doença grave de sua esposa. Em seu lugar, o Dr. Peter Tannock, vice-conselheiro da Universidade de Notre Dame e velho amigo de Kim Beazley, foi convidado a substituí-lo no lançamento.

Dr. Tannock declarou que Beazley tinha duas metas fundamentais a conquistar durante seus longos períodos na oposição:

Uma era a necessidade de reconhecer e apoiar o povo aborígine. Beazley foi eterno defensor dos progressos alcançados pelos aborígines – buscando resgatar sua dignidade como seres humanos.

A outra era a educação que, em meados da década de 1950, foi arruinada pela divisão sectarista entre escolas protestantes e católicas. Como Ministro da educação, Beazley logrou pôr fim a essa divisão e prestou apoio às escolas católicas.

Kim Beazley Junior acrescentou que seu pai era um “social democrata preocupado”, afirmou ele, que escreveu o preâmbulo da Constituição do Partido Trabalhista Australiano. A obra foi “uma revelação para nós como família”, continuou Kim. “Ele era muito prudente com seus colegas. Sinto cada vez mais sua falta à medida que leio o livro”.

Já surgiram diversas resenhas críticas importantes da obra.

Ao escrever para a revista literária Australian Book Review, o ex-Governador do Estado da Austrália Ocidental, Geoffrey Gallop, lembra a primeira vez em que ouviu Kim Beazly, o pai, falar:

“Foi na Kingswood College, na Universidade Western Australia, um ou dois anos antes das eleições do governo Whitlam. Ele discursou sobre a questão dos direitos dos aborígines à terra, cultura e espiritualidade. Foi um discurso fascinante que pôs por terra a doutrina prevalecente da assimilação. E não foi apenas o teor do discurso que cativou o interesse do público de jovens estudantes, mas a paixão com que foi proferido. Como ocorreu com muitos naquele dia, minha opinião a respeito dessa temática mudou para sempre.”

“De diversas maneiras, a obra Father of the House é um relato pessoal da relação entre política e religião, vista da perspectiva de alguém que crê”, declara Gallop. Beazley frisa as fortes influências da “consciência” e da “reconciliação” como forças motrizes na política. Ele revela sua dívida para com ativistas cristãos, como William Wilberforce e Lord Shaftesbury. E conclui dizendo que “a civilização só avança quando a consciência individual se torna mais sensível às necessidades dos outros”. Ele tem plena consciência das tensões que podem surgir em uma sociedade longe de ser perfeita entre “ser político” e “defender a justiça”, e aponta para seus próprios fracassos nesse respeito, sobretudo em relação às atitudes perante o Japão, no período que se seguiu ao pós-guerra.

“Isso me leva ao comprometimento de Beazley com o Rearmamento Moral e sua crença no poder da reconciliação. Beazley fala abertamente sobre sua experiência de transformação na sede do Rearmamento Moral, na cidade suíça de Caux, em 1953. Ele explica que isso elevou tanto seu espírito cristão (a meta de absoluta pureza) quanto sua ideologia política (a meta da honestidade) a novos patamares. ‘Honestidade significava para mim uma decisão de que eu não jogaria o jogo político de inventar teorias, suprimindo o que me era inconveniente e ressaltando o que me era conveniente’, declarou. Não interessa quem está certo, mas o quê está certo. Ele se preocupava muito com as conseqüências pessoais e sociais do poder como sendo um de seus maiores expoentes”.

Uma resenha crítica anterior de Mike Steketee, publicada no jornal The Australian, de 1o de Janeiro de 2009, intitulado “Princípio, e não poder” menciona a desconfiança com que os colegas de Beazley do Partido Trabalhista viam seu comprometimento com o Rearmamento Moral. “Na tradição australiana, religião e política são dois assuntos que não se devem misturar, mas para Beazley eles eram inseparáveis. ‘Se você não aceita a importância da consciência, então você aceita somente a importância do poder’, disse certa vez”. Steketee conclui que “sua história como um todo recupera a fé na política”. Clique aqui para ler a entrevista na íntegra [em inglês]

Uma outra importante resenha crítica da revista The Australian Literary Review, escrita por Ross Fitzgerald e intitulada “Prova de que princípio e política podem se misturar” expande a fé e o comprometimento de Beazley.

“O que achei fascinante nesse livro imensamente agradável foi o papel crucial desempenhado pelo Rearmamento Moral na vida pessoal, profissional e política de Beazley...”.

“Beazley revela que, antes das distrações do dia, ele aprendeu a pedir a Deus a ‘dizer meus pensamentos, escrevê-los no papel e testá-los quanto aos padrões de Deus de absoluta honestidade, pureza, altruísmo e amor’, e em seguida conduzir ações que estejam de acordo com esses padrões.

“Em outros trechos de suas memórias, Beazley repete que, após entrar para o movimento, ele tomou uma decisão de se ocupar diariamente com o desafio de viver sob o desejo de Deus. Como ele mesmo declara: ‘dirigir os holofotes da absoluta honestidade sobre meus desejos. Tentar ver o mundo com a clareza da absoluta pureza. Tomar o amor absoluto como radar através da obscuridade das relações internacionais’”.

Acima de tudo, ele aprendeu a aplicar essas ideias na prática. O que é surpreendente é a forma com que, armado com esses preceitos, Beazley empenhou-se em seguir uma carreira de alto nível na política a nível federal.

“Beazley acreditava que sua atitude como membro comprometido do Rearmamento Moral melhorou as relações com seus colegas parlamentares, sendo eles do Partido Trabalhista ou não. Ele lembra como descobriu que durante essas ‘conversas’ havia ‘muitas vezes uma profundidade e realidade que eu antes desconhecia’ e como não só no parlamento, mas por todos os lados ‘as pessoas percebiam que o tom ríspido da minha voz havia desaparecido do meu discurso...”.

A obra Father of the House pode ser encomendada pelaGrosvenor Books, Austrália