Facilitação Bancária para os Necessitados

J.S. ParthibhanJ.S. ParthibhanAs transações bancárias deveriam ajudar as pessoas mais pobres do mundo, e não somente buscar lucro, diz o banqueiro indiano J. S. Parthiban. Enquanto a Índia elege seu novo governo, ele comenta como lançou esquemas bancários de forma a libertar as pessoas das garras do agiotas exploradores.

Tenho sempre acreditado que o banco é mais uma instituição orientada para negócios holísticos que uma empresa onde o cliente é apenas parte de uma grande estratégia de lucro.

Em 1998 me tornei gerente de departamento do banco estatal indiano em Connaught Place, Nova Delhi. Usei minha posição lá para ajudar os necessitados e vendedores de rua a usar, de forma inteligente, seu dinheiro e viver dignamente. Não havia esquemas bancários designados exclusivamente para eles. Ainda, muitas pessoas estavam vendendo flores, água, brinquedos e outras coisas nas ruas. Observei-os fazendo seu negócio, querendo saber o que fariam com todo o dinheiro que ganhavam.

Eu estava surpreso em saber que eles ganhavam de 500 a 600 rúpias diariamente, o que nem sempre um graduado ou servidor público ganhava. Mas também tinham que pagar propinas pedidas pela polícia para que fosse permitido trabalhar nas ruas. Todos eram experientes e levavam seu trabalho muito a sério. Mas eram ignorantes em gerenciar seu dinheiro. Parthibhan compreendendo os menos privilegiadosParthibhan compreendendo os menos privilegiados

Muitos deles vêm de estados vizinhos, como Uttar Pradesh e Bihar, com muitos sonhos, deixando suas famílias em casa. Eles queriam ganhar dinheiro o suficiente para limpar seus débitos, e casar suas filhas. Eles vieram esperando retornar para casa logo com muito dinheiro e presentes para todos.

Mas a realidade em Delhi foi muito diferente. Não havia empregos estáveis e seus ganhos nunca eram o suficiente para tal. Eles precisavam pedir dinheiro a agiotas, a taxas altíssimas, para resolver seus problemas imediatos, o que se tornou um hábito. Eles nunca conseguiam ganhar ou economizar o suficiente para saldar seus débitos ou mandar dinheiro para casa.

Sua situação ia de mal a pior quando voltavam às suas cidades em ocasião de festas ou outros eventos. Eles pediam emprestado mais dinheiro e visitavam seus familiares com muitos presentes e dinheiro, escondendo a realidade de suas vidas em Delhi.

Eu queria que eles saíssem do débito e vivessem uma vida de dignidade. Então tive a iniciativa de educá-los. Levou tempo e muita paciência para ganhar sua confiança. Eu permaneci ao lado deles, observei e puxei conversa. Mostrei minha intenção genuína de entender suas vidas e seus negócios.

Vendo minha sinceridade, eles se abriram e começaram a conversar mas rejeitaram completamente minha sugestão de guardar dinheiro no banco. Eles reclamaram que não havia dinheiro a guardar quando não tinha nem o suficiente para as demais coisas. Minha persistência os convenceu a ao menos tentar, começando com pequenas economias.

Eles não tinham a menor idéia de como começar. Era difícil abrir uma conta bancária naqueles tempos, com tantos documentos necessários, como um cartão para taxas, cartões de alimentação e comprovação de residência. Então eu garanti que minha equipe bancária os deixasse confortáveis para compreenderem como abrir uma poupança. Em poucos casos iniciais, até contei com suas garantias pessoais. Suas necessidades eram reais e optei pelo risco. O próximo passo lógico para eles era abrir um depósito fixo, que exigia menos burocracia. Abrimos quase 500 contas-poupanças e 300 contas-programadas para os necessitados, vendedores de jornal, vendedores de frutas, chá, engraxates, garçons, motoristas de táxi e de ‘jinriksha’, donas de casa, agentes de polícia e inspetores, cada um abrindo uma conta bancária pela primeira vez em suas vidas.

Parthibhan conversando com as senhoras do vilarejoParthibhan conversando com as senhoras do vilarejoLembro de um jovem que vendia água gelada nas ruas por 50 ‘paisa’ por garrafa. Ele ganharia cerca de 600 a 700 rúpias por dia. Ele teria de 20000 a 25000 rúpias em seu bolso e não saberia onde colocar. A idéia das contas-poupanças falou a ele. Naquele momento eu ia para o sul do estado de Tamil Nadu em 2002, ele tinha cerca de 200 mil rúpias em sua conta e conseguiu pagar suas dívidas. Ele estava livre de preocupações e começou a ter tempo com sua família.

Agora sou gerente de um departamento do Banco da Índia próximo a Salem, uma cidade de mais de 750 mil pessoas em Tamil Nadu. O governo iniciou esquemas de Grupos de Auto-Ajuda, em sua maior parte de mulheres que dificilmente sairiam de casa. O esquema dá a elas a chance de saírem de suas conchas e serem líderes em muitas funções locais. Os bancos emprestaram dinheiro a baixas taxas para suas necessidades. Sob o esquema, grupos podem distribuir o crédito entre eles mesmos com um extra de 1%. O montante adicional é economizado para futuros empréstimos a outros no grupo por uma fração de taxa.

Eu aprendi com os meus pais que servir a outros é como servir a Deus, e sempre buscar oportunidades de ajudar a outros em necessidade. Meu encontro com o grupo agora é chamado Iniciativas de Mudança, e quando fui presidente da união estudantil na Faculdade Sagrado Coração perto de Salem (1971-72), foi também um momento que me mudou para sempre. Eles falaram da construção de um novo mundo e, para mudar o mundo, a mudança deveria começar consigo mesmo. Esta tem sido minha convicção desde sempre.

J. S. Parthiban falou com Amit Sen e Mike Smith. Este artigo apareceu pela primeira vez no ‘Guardian Weekly’.