Perdão e Reconciliação marcam Diálogo em Kono, Serra Leoa

O quinto de uma série de 8 diálogos para parlamentares, prefeitos, diretores e líderes tradicionais acabou de acontecer em Kono, na região leste de Serra Leoa. Kono, distrito rico em diamantes, estava no coração da brutal guerra civil entre 1991 e 2002, que deixou 50.000 mortos. Nos últimos 18 meses, ainda foi possível ver disputas hostis, desordem e violência.

A série de diálogos está sendo conduzida por Esperança Serra Leoa (H-SL), uma ONG local afiliada a Iniciativas de Mudança Internacional, em parceria com o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (UNDP). Esses diálogos têm como objetivo promover a coesão nacional, tolerância política e encorajar reconciliação entre parlamentares e outros mediadores de forma a alcançar paz sustentável e desenvolvimento.

 John Bangura)Demonstração de apoio por paz, reconciliação e tolerância política (Foto: John Bangura)

O diálogo foi precedido por uma marcha pela paz através da principal via de Kono que juntou mais de mil militantes dos 3 maiores partidos políticos (APC, SLPP e PMDC) com membros da Polícia, Forças Armadas e Grupos da Sociedade Civil. Muitos transmitiram mensagens de paz, reconciliação e solidariedade através de canções e cartazes. A marcha ajudou a unir o abismo entre os militantes dos maiores partidos políticos. Isso foi seguido por um lançamento público do diálogo, com palavras de John Bangura, fundador de Esperança Serra Leoa. Bangura falou da perda de 9 membros de sua família durante a guerra, fazendo-o nutrir profunda amargura contra a Frente Revolucionária Unida (RUF). Mas sua ânsia de vingança foi interrompida pela inspiração divina e em 1999 ele decidiu tornar-se um embaixador itinerante pela paz no país. Ele apelou ao povo de Kono que resistam à violência, e aceitem e perdoem uns aos outros em nome da paz e reconciliação.

A light-hearted moment during the dialogueAbrindo o coração durante o diálogo

Depois da Sessão de Abertura, mais de 40 participantes incluindo MPs, líderes tradicionais, Prefeitos, Conselheiros e representantes de diferentes partidos políticos participaram em um diálogo interativo de 3 dias no Kumba Satta Hall. Dentre os tópicos estavam incluídos corrupção, as causas básicas do subdesenvolvimento, a intolerância política, ódio, mudança de atitude e desafio moral de curar as amarguras do passado. O diálogo ainda fortaleceu ao trabalho em equipe e construção de confiança em meio aos participantes, de forma tal que alguns se sentiram capazes, em pequenos grupos, a transformar profunda hostilidade pessoal e atitudes erradas e buscar perdão e reconciliação.

Uma conselheira falou sobre a tortura e o trauma que ela sofreu nas mãos da antiga Força de Defesa Civil (CDF), uma milícia pró-governo, durante a guerra. Ela não escondeu sua amargura e sede de vingança contra o Partido Popular de Serra Leoa (SLPP) que a fez acreditar que apoiou o retorno da CDF. Movida pelo que passou durante o diálogo, ela decidiu compartilhar coisas que nunca havia tido coragem de contar a Comissão de Confiança e Reconciliação, definida em 1999 para investigar crimes cometidos durante os 11 anos de guerra revolucionária.

‘Quando ouvimos rumores de uma invasão da RUF em Kono, eu e minha família decidimos nos mudar para uma zona segura, perto da fronteira com a Guiné. No caminho, os kamajors da CDF (guerrilheiros tradicionais) nos interrogaram e nos levaram nosso dinheiro, me deixaram nua e depois me aprisionaram porque meu marido era soldado. Eu estava grávida de nove meses de gêmeos e um dos kamajors me bateu. O choque fez com que meu primeiro filho nascesse sem ninguém vir me acudir. O segundo filho precisou ser forçado a sair. Como se não bastasse, fomos levados ao campo de execução onde 15 de nós foram enfileirados. Por um milagre de Deus fomos resgatados por soldados guineanos que me levaram para um hospital onde permaneci por 3 meses’.

Por causa desta amarga experiência nas mãos dos kamajors, ela nutriu um sentimento muito ruim contra eles e nunca pensou em perdoá-los, mas ela disse que Maria, a Mãe de Cristo, apareceu para ela num sonho e pediu que ela perdoasse os kamajors. Isso a fez começar a pensar em perdão. ‘Pelo que foi compartilhado aqui, sei que outras pessoas possuem experiências mais amargas que eu, e perdoaram seus perpetradores. Assim, hoje perdoei os kamajors pela dor e agonia que me afligiram’, disse em lágrimas.

Um dos ativistas políticos do Movimento Popular por uma Mudança Democrática (PMDC) em Kono, Felix Fofoe, contou ao encontro que durante a campanha pelas eleições presidenciais e parlamentares de 2007, ele foi pressionado e intimidado por alguns membros do SLPP, o partido da ocasião. A questão foi antes da Corte de Magistrados em Kono, mas como resultado do diálogo ele decidiu não colocar a questão em júri e perdoar seus perpetradores.

Uma ex-conselheira da SLPP confessou que seu esposo foi forçado por um alto oficial do governo a deixar a polícia devido ao seu papel na política. ‘Nutri uma profunda objeção contra este homem, mas por causa do que aprendi durante este diálogo, o perdoei agora e para sempre’, disse a ex-conselheira. Um jovem líder, que também foi líder da força tarefa do Congresso de Todos os Povos (APC), disse que foi constantemente e falsamente acusado pela polícia e chefes paramounts por crimes que não cometeu. Ele complementou, ‘Durante as eleições, minha vida foi marginalizada e oprimida por chefes porque eu pertencia ao APC, mas com os ensinamentos neste diálogo, eu os perdoei’.

Muitas outras pessoas fizeram declarações abertas e francas, dizendo ter decidido perdoar os perpetradores em prol da paz e desenvolvimento sustentável. Ainda, eles discutiram a necessidade urgente de curar a amargura do passado e manter a paz conseguida a duras custas.

Ao final de um evento de 3 dias, os mediadores, juntos com a equipe de H-SL, tomaram uma decisão unânime de convidar o Exmo. Sr. Presidente Dr. Ernest Bai Koroma, e o Honorável Vice-Presidente, Chefe Samuel Sm-Sumana, a plantar uma árvore da paz em Kono. Em complemento, os participantes sugeriram que o programa fosse replicado na comunidade e nos vários níveis de chefia para o benefício do povo local.