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ESTABELECENDO UMA PONTE COM A CHINA
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O abismo está entre a China e o Ocidente sobre o Tibete: duas histórias diferentes que tornaram sua comunicação bem difícil. Como construir uma ponte de confiança ?
Lendo alguns websites informando algumas perspectivas chinesas sobre o Tibete, notei o quão grande é o abismo entre a China e o Ocidente. E não estou falando apenas de perspectivas do governo chinês, mas de opiniões de gente chinesa bem informada.
Por trás desses vastos entendimentos pousam duas narrativas diferentes: Bastante simples, a história ocidental é que o Tibete foi uma vez um lugar pacífico e espiritual – o lar do místico Shambhala / Shangri-La – até que foi invadido pelo exército chinês em 1950. Desde então os chineses têm tentado sistematicamente destruir a cultura tibetana, destruindo monastérios, aprisionando e matando monges budistas e colonizando em grande escala, marginalizando tibetanos em sua própria terra.
A história chinesa, por outro lado, é que o Tibete sempre foi parte da China, historicamente – uma parte esquecida e menos civilizada à margem do império. A cultura tibetana era bárbara, feudal e corrupta. Invadir o Tibete era a extensão do grande projeto comunista de modernização da China, tirando aquele povo da escuridão do feudalismo e transformando-o numa sociedade industrial capaz de encontrar as necessidades materiais para todos.
Discutir qual história é a ‘verdadeira’ é praticamente fútil. Cada lado está convencido de seus próprios ‘fatos’. A questão é que essas duas histórias tão diferentes tornam a comunicação bastante difícil. Quando o Ocidente fala de direitos humanos, os chineses escutam como um cínico ‘arraste da China’. É difícil para eles entender por que o Ocidente estaria tão interessado sobre direitos humanos no Tibete quando parece menos interessado sobre direitos humanos na Baía de Guantanamo ou no Iraque.
Quando o Ocidente fala que a China deveria falar com Dalai Lama, os chineses ouvem como manipulação política. Eles enxergam Dalai Lama como uma base da política externa da CIA.
Lembro de uma fala de John Coleman, um afro-americano pioneiro em reconciliação: ‘Você precisa construir uma ponte de confiança que seja forte o suficiente para abrigar a verdade que você quer comunicar’. Tal ponte de confiança não existe. Até lá, os esforços de pop-stars gritando ‘Tibet’, ou protestantes tentando extinguir a tocha olímpica, irão apenas ampliar o abismo.
A confiança é construída, acima de tudo, por ouvir o outro com humilde. Nós, ocidentais, não temos sido bons nem em ouvir, nem em sermos humildes.
Humildade significa reconhecer nossas próprias falhas, incluindo o vergonhoso episódio das guerras do ópio quando as forças imperiais do Ocidente tiraram vantagem de uma China fraca para encher nossos próprios bolsos através das drogas. Significa reconhecer que nosso próprio nível de direitos humanos tem sido menos que perfeito. Significa reconhecer que a pobreza espiritual de nossa cultura, a qual faz a lenda de ‘Shangri-La’ tão apelativa.
Ouvir significa estar pronto a escutar. Amo a história de um professor ocidental de religião que vai aprender sobre o budismo por meio de um mestre zen. O mestre serve o chá. A xícara enche e o mestre continua servindo o chá até que transborda pelo pires e cai no chão. O professor se sobressalta gritando: ‘Pare, pare. A xícara está cheia, não cabe mais chá!’. O mestre olha pra ele e diz ‘você é como essa xícara: tão cheio de suas próprias idéias e opiniões que nada mais cabe aí’.
Os Jogos Olímpicos de 2008 são uma grande oportunidade de interação entre a China e o Ocidente. Sim, a China estará sob análise, particularmente sobre direitos humanos e o tratamento das minorias, e daí vai. Mas o processo vem do diálogo. Se pudermos ‘esvaziar nossas xícaras’, colocando de lado tudo o que pensamos sobre o outro e humildemente ouvir uns aos outros, poderemos ser modelos de um diálogo genuíno.
Tal modelo deve então dar uma chance de ser aplicada no Tibete, onde certamente é necessário. A boas notícias é que muitos jovens chineses consideram a cultura espiritual tibetana tão atrativa e fascinante quanto os ocidentais. São bons presságios para muitos diálogos de coração aberto, tanto oficiais quanto não-oficiais, que serão necessários entre os chineses e tibetanos se o Tibete viver para sua promessa espiritual.


