CURANDO UMA AMARGA HERANÇA DE 60 ANOS

Sushobha Barve em frente ao Lago Dal,Srinagar, Kashmir

Sushobha Barve em frente ao Lago Dal,Srinagar, Kashmir

Do povo surgiu um ‘eleitorado da paz’ na Índia, Paquistão e Kashmir, que cutuca os governos a se mover. Mike Brown encontra Sushobha Barve, que é parte disso.

Apesar de três guerras desde sua partição sangrenta, apesar das armas nucleares, terrorismo e mais de meio milhão de tropas de ambos lados em Kashmir, a paz está aparecendo entre Índia e Paquistão, argumenta Sushobha Barve.

‘Podemos enxergar o fim da amarga herança dos últimos 60 anos e começar um novo capítulo nas nossas relações bilaterais’, disse ela numa conferência em Caux, Suíça, agosto último. O sinal mais visível de uma mudança é o diálogo de paz entre governos que ‘tem se sustentado por mais de quatro anos, apesar das sérias provocações’.

Nas alentadoras conversas em 2003, ambos os lados modificaram suas posições de longa resistência em Kashmir, e lançaram um ‘diálogo composto’ com progresso em múltiplas questões, incluindo segurança de fronteiras, combate ao terrorismo e cooperação econômica. Várias sessões de conversas foram estabelecidas na disputa de Kashmir, em questões como comércio e travessia de fronteiras, redução de tropas, reunião de famílias e assistência humanitária.

Julho passado em Kashmir, o Primeiro Ministro da Índia, Manmohan Singh, disse que o momento viria quando as ‘pessoas se esforcem’ em fazer um esforço genuíno ‘de construir a paz e criar as condições para uma histórica reconciliação de corações e mentes’.

Sushobha Barve concorda. Esta ‘emergente estória cheia de esperança’ é baseada em seus 20 anos de envolvimento no crescente ‘eleitorado da paz’ na Índia e no Paquistão. O progresso feito pelos governos se deveu largamente à ‘pressão do povo’. Este movimento começou a reverter o déficit de confiança acumulado por mais de seis décadas de ‘desconfiança e hostilidade profundamente entranhadas em nós’.

As primeiras iniciativas significativas da sociedade civil começaram em 1995. Em Delhi, 200 indianos e paquistaneses se encontraram em um ‘Fórum pela Paz e Democracia dos Povos Paquistaneses e Indianos’. No ano seguinte, o encontro foi repetido em Lahore, e depois anualmente. Na ocasião da guerra de Kargil em 1999, um grupo de mulheres viajou da Índia ao Paquistão, afirmando seu comprometimento com a paz. A viagem de volta à Índia trouxe um experiente advogado, Asma Jehangir, que se desculpou pela agressão do Paquistão naquela guerra.

Sushobha primeiro visitou o Paquistão em 1986 e encontrou mulheres ativistas. Inicialmente, ela teve alguma suspeita sobre o Paquistão. Mas através de muitas visitas, hospedando-se em casas, sua desconfiança dissolveu-se. Hoje, a equipe do ‘Centro para Diálogo e Reconciliação’, que ela coordena, está em contato com ‘todas as pessoas-chave relevantes nos dois governos, assim como dissidentes de líderes Kashmiri’.

Para Sushobha, aquele processo começou com uma colega muçulmana na faculdade em Mumbai. Como uma Maharashtrian Brahmin, Sushobha começou a confrontar seu preconceito contra sua companheira e perdoá-la. ‘Este encontro abriu as janelas do meu coração’ aos muçulmanos na Índia. Também permitiu o trabalho voluntário de Sushobha com IM (na ocasião Rearmamento Moral) na Índia por cerca de 30 anos.

Um ponto crítico de mudança veio em 1984 quando a Primeira Ministra Indira Gandhi foi assassinada por sua guarda-costas Sikh. Sushobha estava viajando num trem, interrompido por gangues revoltadas. Ela tentou proteger dois homens de negócios Sikh de seu compartimento, mas foi presa pelo pescoço e empurrada. Os Sikhs foram brutalmente espancados, tirados do trem, apedrejados e ateados fogo.

Traumatizada, Sushobha se sentiu ‘torturada à noite por não ter sido capaz de salvar as vidas dos dois homens inocentes’. Isso destruiu a imagem que tinha da Índia. Sentindo que era necessário um arrependimento nacional, ela escreveu cartas pedindo para importantes Sikhs que perdoassem. Ela soube que os homens de negócios Sikhs de alguma forma sobreviveram às massivas injúrias, e descobriu como chegar às suas casas. ‘Não posso expressar a satisfação que senti quando vi Bhupendra Singh deitado em sua cama. Fui recebida não com hostilidade e sim como uma velha amiga da família’.

O trabalho de Sushobha se viu numa nova urgência. Em 1992, a destruição de uma mesquita por hindus da ala direita propagou ondas de protesto e bombardeios em série em Mumbai. Milhares de pessoas morreram. Durante três meses, Sushobha se mobilizou através de comunidades onde uma minoria muçulmana estava presa, chamando a polícia, trocando hostilidade nas ruas. Com o ex-Chefe de Polícia de Mumbai, ela passou anos organizando comitês ‘24 horas’ da polícia-cidadã ‘mohalla’, reconstruindo confiança entre comunidades divididas através do diálogo e projetos práticos, como esportes.

Em 2000, ela lançou o ‘Centro para Diálogo e Reconciliação’ (CDR) em Delhi. Em inúmeras situações de conflito, como os protestos hindu-mulçumanos em 2002 em Gujarat, ela esteve ativamente envolvida em esforços para mediação e pesquisa.

Mas Kashmir foi seu desafio mais difícil. ‘Ter ido lá pelos últimos dez anos me fez perceber o outro lado da estória. Kashmir não é uma questão hindu-muçulmana, mas uma questão política que nunca foi resolvida. Até agora, muitos kashmiris dizem não saber a onde realmente pertencem’.

O CDR iniciou uma série de diálogos, começando em residências, principalmente com mulheres. ‘Nosso principal papel não era conversar sobre política e sim sobre como o conflito nos afetava. A experiência de cada uma, transbordada, era ouvida’. As mulheres começaram a pensar como poderiam ajudar outras. Alguém falou de uma cidade onde só existiam viúvas – elas as ajudaram a encontrar compensação para aquilo. Outras iniciaram um projeto para conseguir sair da miséria através da tecelagem com lã de Pashmina.

Oito desses diálogos ocorreram em Srinagar, Jammu, mais em Delhi-Gurgaon. Eles trouxeram em Kashmiri Pandits, a minoria hindu, milhares daqueles que se exilaram nos anos 90. ‘Pensamos que ambas comunidades desenvolveram suas próprias narrativas do passado, completamente opostas. Mas ambos estavam baseados em experiências reais’.

Muitas mulheres sentiram medo por seus filhos. Um professor expressou como se tornou distorcida a vida para as crianças: ‘Jovens são treinados para usarem armas, mas não existem cursos para resolver conflitos’. Então começou o programa de CDR ‘Educadores para Paz’ que, desde 2003, treinou cerca de 150 professores para incluírem isto no currículo das escolas do governo.

Em 2004, CDR coordenou o primeiro de sete ‘Diálogos Intra-Kashmir’ para representantes de ‘ambos Kashmir’. Estes continuaram em Islamabad, e na parte de Kashmir ocupada pelo Paquistão. Ex-secretários estrangeiros de ambos países participaram, enviando propostas para agentes políticos.

Os diálogos tinham intenção de incluir a maioria dos diversos pontos de vista para que a reconciliação tivesse uma chance. Eles engajaram líderes ‘dissidentes’ significativos como Yasin Malik, pioneiro no ‘Fronte de Libertação Jammu Kashmir’ que, depois de libertado da prisão, recusou a violência e está liderando um ‘Safar-e-Azadi’ (Viagem de Liberdade) não-político, indo de cidade em cidade em caminhões. Sua mensagem, diz Sushobha, é que os Kashmiris não deviam suspeitar das intenções do processo de paz mas sim insistir em seus direitos de serem incluídos para decisão de qualquer acordo.

Sushobha fomenta este princípio. Ela cotiza uma mulher: ‘Por que sempre se tem a expectativa de que Kashmiris acomodam interesses indianos e paquistaneses e suprime nossas próprias aspirações? Por que não confiam em nós? Confie em nós e consideraremos suas dificuldades quando respondermos aos interesses nacionais’.

Estabelecer esta confiança, insiste Sushobha, é a chave. ‘Sempre soube que não se pode tomar as pessoas à força. Se não se sentem parte de nosso país, é algo para que nós, indianos, pensemos a respeito. Não se pode ganhar a paz deles dando dinheiro’.

O processo de paz atingiu as massas através dos próprios kashmiris. ‘Os participantes do diálogo devem ser responsáveis por manter as linhas de comunicação abertas para que as oportunidades de paz não se percam’.

O mais difícil para ela ‘continuar aprendendo’, admite, ‘é encontrar meu próprio senso de neutralidade. Se freqüentemente não se percebe isso, alguém sugere algo de um lado ou de outro, e então sua objetividade diminui. Este trabalho me força constantemente a confrontar as dores e sofrimento dos outros’, permitindo-me olhar para dentro de meu coração para superar meu orgulho e tirar o foco de meu próprio país’.

O que a impede de tornar-se negativa? ‘Nos últimos sete para oito anos vi o que era então inacreditável tornar-se uma realidade. O fato de o processo de paz estar acontecendo, e que todos estão tomando responsabilidades, me dá esperança... É claro que existem momentos em que me sinto desencorajada. Mas estes momentos são cada vez menores’. Para mais detalhes, veja www.himmat.net/cdr.htm.